Tradução
Tradução como Prática Criativa
Discussão sobre como a tradução funciona não apenas como ponte entre linguagens, mas como produção criativa que redefine textos, contextos e possibilidades de leitura.
A tradução é frequentemente descrita como transposição — um texto de partida que migra para outro sistema linguístico. Essa concepção, embora funcional, subestima o trabalho criativo que o ato de traduzir exige e produz.
Quando Haroldo de Campos inventou o conceito de transcriação, estava nomeando um processo que os tradutores já realizavam intuitivamente: a criação de outra obra, não uma cópia. A fidelidade ao sentido exige liberdade formal. A equivalência dinâmica, de que fala Eugene Nida, é uma escolha estética tanto quanto semântica.
No NELI, investigamos a tradução como prática que revela o que o texto original deixou implícito, aberto ou historicamente condicionado. A comparação entre versões de um mesmo texto é ela própria um método crítico — não para hierarquizar traduções, mas para iluminar a pluralidade de leituras possíveis.
A perspectiva intermidiática expande essa discussão: quando um romance vira filme, quando um poema é musicado, quando uma narrativa oral é transcrita, o que se traduz não é só a linguagem verbal. Traduzem-se modos de perceber, ritmos culturais, expectativas de recepção.
Essa é a zona de trabalho que nos interessa: onde tradução e recriação se tocam, onde o texto de chegada é ao mesmo tempo tributário e autônomo.
